
“Será que ele está voltando? Às vezes, me sinto tão ligado a ele que é como se o visse fazer todas as coisas do seu dia, como ler, escrever, andar, comer. É um amor visceral, que vem mesmo bem aqui de dentro. Há muito tempo que passou para debaixo da pele, já não tem mais nada de cutâneo. Ou, então, é uma obsessão estúpida e, como eu sou teimoso e decidido, resolvi me agarrar a isto, para não ter que enfrentar o que é a realidade sem o amor que tenho por ele. Acostumei a viver assim e fiquei fechado na minha própria prisao. Cada escravo carrega a chave da sua própria liberdade. Será que é mesmo assim? Ou há seres humanos tão estupidamente condenados a sofrer? Não pode ser, tenho que ser dono da minha própria vida, e, se não controlo o que sinto, vou meter meu coração no congelador, arrumo os assuntos amoroso por uns tempos e dou paz e sossego à minha vida. Mas se ele voltasse… Ah! Se ele voltasse…!”
RUSSEAU, Thomas. “Printemps”, 2011.